domingo, dezembro 17, 2006

De como o raciocínio excessivo pode matar a fantasia

Ontem estava na Livraria Almedina do Arrábida Shopping, a folhear um livro com o nome tipo "Essential movies of the 80s", ou "Greatest movies of the 80s", ou "Qualquer coisa em inglês movies of the 80s". Como é frequente neste tipo de obra, as escolhas eram concensuais e óbvias. No capítulo dedicado a 1985, tinha - como é evidente - o "Regresso ao Futuro". O Regresso ao Futuro é um dos meus filmes favoritos de sempre, e embora as sequelas - principalmente a última - não tivessem o mesmo nível, funcionam bem como triologia.
Convem frisar que eu vi este filme em 1985 - então com 10 anos - cerca de 2 semanas antes de ser operado a uma apendicite, tendo ficado uma semana sozinho no hospital, o que pode ter originado a minha relativamente suave hipocondria. Uma vez a alta obtida, como "prémio de consolação, pedi aos meus pais para me levarem a ver esse filme pela 2a vez, sendo este o 1º filme que vi mais de uma vez.

Mas a interpretação que o livro fez do filme, deixou-me algo estarrecido.
Como se sabe, a família de Marty McFly era composta por nerds e losers, antes dele ter ido para 1955. Depois de ele ter alterado o continuum tempo-espaço, a família dele é rica, ostensiva, health-obsessed, yuppie, enfim, o verdadeiro protótipo do american dream, na sua versão anos 80/Ronald Reagan. O livro vai ainda mais longe e apelida a obra de Robert Zemeckis de ter um forte cunho conservador, uma vez que demonstra e defende o "retorno" a um tempo mais simples, antes do Movimento dos Direitos Civis dos 60s, de forma a alterar o (a corrigir os erros do) passado de forma a produzir o Hommo Americanos, gizelado pela aplicação nos anos 80 ("the Me Decade") das idéias de Reagan (conservadorismo moral e liberalismo económico absoluto), e as suas "Reaganomics").

Que o Robert produziu muitos filmes...pouco polémicos é certo. Mas eu nunca poria as coisas nesses termos. Para mim o Back to the Future é um filme de Ficção-Científica, em que o filho de uma família infeliz viaja no tempo e consegue alterar o seu destino. "When you put your mind to something, you can achieve anything" é o conselho de Doc Brown e o motto positivista do filme. Eram tempos em que com orçamentos e meios tecnológicos bem menores do que os de hoje em dia se produziram pérolas imortais. Back to the Future, Ghostbusters, Gremlins, Goonies, e tantos, tantos outros conseguem ainda fazer frente, em termos de originalidade e magia ao melhor do que se produz no século XXI, com quazilhões de dólares e mega-hiper efeitos de computadores. E não é porque um gajo qualquer escreveu um livro em que quase adjectiva o filme de ferramenta-propaganda do Partido Republicano que um dos filmes que fizeram a minha infância vai perder o lugar especial que granjeou no meu coração.

2 Comments:

Blogger Carrie, a Estranha tornou público que...

Tb adoro esse filmes q vc listou! gosto muito de ET, tb. Acho q foi o primeiro filme q eu vi no cinema. Devia ter uns 6 anos.

Mas, as pessoas podem ter suas interpretações sobre as coisas, não acha? E isso não quer dizer q seja a verdade ou q influencie as apreciações.

Por falar em interpretações, te respondi sobre o "realismo"de KAfka e minhas interpretações sobre a barata e o Castelo.

Bjs

1:57 da manhã  
Blogger Sergy tornou público que...

Sim, o famoso ET! Tenho o dvd da edição especial e remasterizada do ET, mas não sei porquê parece que eles alteraram algumas cenas.
E sim, claro que cada um interpreta como quiser, mas, sei lá, achei uma opinião muito fria e calculista sobre um filme que tanto me diz.

8:00 da manhã  

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