terça-feira, novembro 07, 2006

Medo



Medo. A besta negra da natureza humana. Medo. A emoção primordial. Medo em estado cristalino e puro. Um das mais fortes alteradores da percepção sensorial. O medo nunca é tão forte como quando é todo sentimento e nada racional. Quando não tem explicação, causa plausível, justificativo...aí encontramos o medo em todo o seu esplendor pré-pânico.

Há uns meses atrás, em Setembro, numa noite perfeitamente normal, encontava-me sozinho no Shopping Cidade do Porto. Era uma noite da semana de um dia sem História, sem aborrecimento ou sobressaltos; mesmo solitário, sentia-me perfeitmente em casa, num que é um dos meus shopping centers favoritos, um sítio totalmente aprazível, bem iluminado, sem nenhum dos fantasmas suspensos nos decrépitos corredores de outros locais comerciais que me agradam, como o Brasília ou o Parque Itália.

De repente, encontrei-me cara a cara com uma senhora de uma certa idade, quiçá menos do que as suas rugas faciais denunciavam, mas por certo bem acima dos 50.

Senti medo....

Não tenho nada a justificar. Senti medo. Senti uma enorme garra gelada a cavalgar do fundo das minhas entranhas querendo cravar as suas retorcidas unhas/pregos nas minhas cordas vocais; quis gritar mas não pude. Senti nauseas e vontade de vomitar. O meu sangue cubos de gelo afiados..a sua ameaça de me perfurar as veias, uma ameaça verossímil.

A visão dantesca desapareceu-me da frente. O saque nas ruas da minha mente assim açaimado, tentei tornar a ser senhor de mim próprio. Era uma mulher de certa idade, não mais. Nada na sua atitude aparentava ameaça; simplesmente uma andarilha como eu a aproveitar umas horas de ócio vazias. Ademais, o aspecto da mulher não tinha nada de monstruoso ou assustador. Uma mulher alta e moderadamente magra, seus trajes não escapavam às convenções. Um cabelo escuro liso abaixo dos ombros, uma face pálida, muito pálida, que não deveria ser sem atractivos antes da crua Danse Macabre dos anos provocar a erosão da epiderme. Um par de olhos como lagos de água glauca, outrora azul.

Uma vez recuperada a coragem, o ritmo cardíaco a abrandar...ei-la à minha frente uma segunda vez. Mais uma vez não cedi ao pânico, mas fui presa fácil do medo de novo em crescendo, arrebanhando-me com perfurantes garras aquilinas.

Quando o auto-domínio voltou uma vez mais, decidi baixar ao mais baixo nível do edifício, pensando estar finalmente livre dessa bruxa que perturba a minha calma existência. E uma terceira vez, vinda de nenhures ela aparece ante mim, e uma última vez deixo o medo tornar-me eu, caio na tentação da perda da razão...e ela avança cada vez mais, cada vez mais perto, lenta mas resoluta e eu não sei que fazer, apetece-me gritar, correr fugir, apetece-me matá-la, levantar o meu guarda-chuva bem acima da cabeça e servir-me dele como martelo contra a pálida figura, até arma ou vítima serem totalmente desintegradas...

Mas consegui virar-lhe as costas e terminar de vez com este interminável pesadelo. Olhando para trás, a única explicação minimamente satisfatória que eu encontro para esse deboche de emoção básica é o facto de essa senhora ter sido um catalizador da noite e da solidão.

Voltando a casa sinto a segurança do lar queimar o resto do medo, quando tranco a porta às trevas externas envolventes...