terça-feira, setembro 19, 2006

Pink

Em Portugal, a indústria das revistas cor-de-rosa é assaz peculiar (aliás em Portugal qualquer indústria é assaz peculiar, mas isso agora é irrelevante).

A primeira noção a ter em conta é que em Portugal mesmo as revistas que não se assumem como cor-de-rosa são-no (com a excepção de revistas do género das saudosas Tânia e Gina, bastiões literários dos anos 80, onde a cor - malgrado a predominância de coisas rosáceas - era de somenos importância).
Assim, qualquer revista de fim-de-semana de um qualquer jornal é uma revista cor-de-rosa e qualquer revista de TV (tipo TV Guia, TV 7 Dias ou TV +) não passa duma revista cor-de-rosa com a programação de TV mais detalhada.

As revistas cor-de-rosa não servem para ser lidas, mas para decorar salas de espera e salões de cabeleireiro.

É injusto dizer-se que toda a imprensa do coração são a revista Maria, na sua versão urbana-século XXI. Esse papel cabe somente a revistas com nomes de gajas, como Ana, Cláudia, Ana+Atrevida, Hermengarda e etc., revistas proletárias para mulheres proletárias lerem no autocarro de manhã ou na pausa para o almoço na fábrica, e onde se dá dicas de beleza e saúde, e se ensina a fazer um bom souflett e um bom broche para evitar que o "home" delas faça muitas horas extraordinárias com a secretária.
Essas revistas podem ter o seu quê piroso, mas são úteis para o público-alvo.

As outras revistas cor-de-rosa "propriamente ditas" têm supostamente mais nível, falam do "jet-set luso" ("jet-set luso" é um conceito nonsense, a propósito), e também têm a sua utilidade, por exemplo...

O que é facto é que as revistas cor-de-rosa lembram-me as cartas "pessoais" que a Câmara Municipal de Matosinhos manda aos cidadãos pelo Natal, e que começam sempre por "Querido/a amigo/a". Têm 3 ou 4 modelos de artigos, e limitam-se a alterar as fotos e nomes.

Relativamente a figuras internacionais, qualquer coisa que um membro de uma família real europeia/actor de Hollywood/músico de renome faça dá logo direito a artigo.

Basicamente os artigos sobre celebridades nacionais acabam por cair numa destas categorias:

- Festas de jet-set: 11 meses em Lisboa, 1 mês no Algarve.
- Figura pública recupera de doença: basicamente uma "estrela" esteve doente e mostra-se publicamente para mostrar que ainda não esticou o pernil e portanto já pode ser convidado para festas do jet-set (11 meses em Lisboa, 1 mês no Algarve).
- Figura pública vai com os filhos ao cinema/ao lançamento do novo livro do Harry Potter, ou qualquer treta do género: útil para difundir a imagem de pai/mãe extremoso, embora os filhos não vejam os pais 99% do tempo.
- Estrela "instantânea" vem dar grande entrevista a dizer que o sucesso repentino não lhe subiu à cabeça, embora nunca mais tenha posto os cotos no Bairro de Alfama onde viveu.
- Actor/actriz de novela arranja um papel secundário (recorrendo sabe-se lá a que) numa irrelevante telenovela brasileira ou espanhola, ou arranja um papel de figurante como empregado doméstico hispânico num filme de Hollywood, para lançar "grande carreira internacional".
- Casalzinho de celebridades em férias amorosas: útil para refutar rumores de desentendimentos entre casais de vedetas (não é raro "ela" ser da idade da mãezinha "dele").
- Estrela da música/teatro/TV/cinema fala sobre o seu novo "projecto". Em Portugal não se gravam discos, não se fazem programas de TV, filmes ou peças. Antes as pessoas têm "projectos". E claro, dizem sempre que vão até onde os deixarem ir. As pessoas têm projectos, mas há sempre uns "eles" indefinidos que nunca os deixam atingir o seu total potencial.
- Estrela anuncia fim da sua relação anterior. Basicamente tal artigo serve para indicar aos interessados que a dita vedeta está novamente no mercado (embora seja verdade que a dita vedeta nem morta se iria envolver com ninguém da grande e suja massa suburbana que constituí a quase totalidade dos leitores da revista). O que é engraçado é que as vedetas não têm o mesmo tipo de relacionamento que a escumalha! Os casamentos e namoros não terminam com gritos, choros, baba, ranho, encornanços, nem nenhuma peixeirada do tipo! Simplesmente "o amor acabou", mas frisam sempre que "a amizade continua forte".