sexta-feira, agosto 18, 2006

Filmes que não me importo de ver "n" vezes



“What is Democracy!!?”
“I believe it has something to do with young men killing other young men!”
“When it comes my turn, will you want me to go?
”For democracy, any man would give his only begotten son!”

Johnny got his gun – E deram-lhe uma espingarda

Talvez o título deste post esteja errado! Duvido que eu queira, ou que tenha coragem, de ver este filme uma segunda vez! MAS é um filme que toda a gente devia ver pelo menos uma vez na vida!
Único filme realizado pelo escritor/argumentista Dalton Trumbo, este filme é um verdadeiro murro no estômago! Minto! É um murro no estômago, uma joelhada nos colhões e um pontapé nos rins com Dr. Martens quando estiveres caído no solo!
Johnny got his gun é provavelmente o mais chocante, mais traumático, mais comovente manifesto pacifista.

Este filme não é um clássico, teve pouco sucesso na distante altura que saiu (1971), e provavelmente teria sido totalmente esquecido (o meu pai conhece-o, mas o meu pai é uma enciclopédia de cinema) não houvesse sido pelo facto de partes deste filme terem aparecido no videoclip One, da banda Heavy Metal Metallica, uma grande banda que como toda a gente sabe está extinta há anos.
Há anos que queria ver este filme, porque precisamente One sempre foi uma das minhas músicas favoritas dos saudosos Metallica.

A letra da canção é basicamente a sinopse do filme.

Um jovem americano do princípio do século XX, educado com a mentalidade rural americana de Deus, Pátria e Família (o pai disse-lhe que tinha mais amor pela sua cana de pesca do que por ele, embora não se tivesse importado que ele a tivesse perdido em vésperas de ir para a guerra) vai servir os EUA na 1ª Guerra Mundial…

Este não é um filme de guerra. É um filme sobre as consequências da guerra. È um “Nascido a 4 de Julho”, hardcore e com esteróides! Não há muitas cenas de guerra, excepto em flashbacks reais ou surrealistas….

…e fica sem os 2 braços, sem as 2 pernas, cego, surdo, mudo e sem cara abaixo da testa (durante o filme, está sempre coberto com uma espécie de máscara cirúrgica)!!!!!!

O que se segue não é bonito! Alguém que era alguém, por causa da guerra, por algo que não controla nem teve culpa, deixa de ser alguém para se tornar um pedaço de carne autista, que respira, que sofre, que sofre imenso, que vive(?). Alguém que os médicos pensam ser um vegetal, mas que conserva TODAS as suas capacidades mentais, para mal dos seus pecados.
Durante quase 2 horas sentimo-nos a ser esmagados pela experiência claustrofóbica do pobre Joe Bonham que fechado dentro de si mesmo, e só capaz de fazer alguns poucos movimentos com o pescoço e com o tronco, vê-se subjugado às suas memórias, e aos seus pensamentos, e no seu verdadeiro inferno interior, desligado do resto do mundo, sem saber onde está, sem ouvir ninguém, sem ver ninguém, desconhece se está morto, se está vivo, quando está a sonhar e quando está acordado.


Assim vamos conhecendo as suas reminiscências, as suas doces memórias infantis, os seus sofrimentos, as suas ínfimas vitórias (quando lhe abrem a janela e ele sente o calor do sol, imaginando-se como era, deitado no campo debaixo do sol) e os sonhos e pensamentos desesperados mais bizarros. O pormenor de ele se ver a falar com um Jesus Cristo interpretado por Donald Sutherland, primeiro quando o vê a dizer aos seus colegas de pelotão como irão morrer: “My son is 1-year old, I sure would like to see him when he is 5!” “You will see him when he is 50, and you´ll still be 23!”, e depois na oficina de carpinteiro deste, enquanto atrás vão descarregando cruzes de madeira, e o JC vai-lhe dizendo “Try to attract the attention of people by moving your eyes!” “I don´t have any eyes!”, “If you´re having a bad dream, scream to wake yourself up” “I can´t scream!”, “If a mouse is walking all over you, knock him off!”, “I don´t have any arms!” “Well, I think you´re a very unfortunate young men, and you´d better leave me alone!” é deliciosamente agridoce!

Ao longo do filme, uma enfermeira jovem, ignorando as ordens do médico para evitar ligações emotivas com os pacientes, nutre por ele sentimentos de piedade e carinho, que a levam a tomar atenções especiais, nomeadamente proporcionar-lhe os únicos momentos de prazer…palpáveis que ele terá desde que ficou reduzido ao quase nada.

No fim Joe fica escondido de tudo e todos, escondido para não se saber o terrível erro dos médicos, e o terrível erro das nações…até o dia em que morrer de velho!




“Inside me I'm screaming, and yelling, and howling like a trapped animal, and nobody pays any attention. If I had arms, I could kill myself. If I had legs, I could run away. If I had a voice, I could talk and be some kind of
company for myself. I could yell for help, but nobody would help me, not even God, because there isn´t a God. There couldn´t be any in a place like this. And yet I gotta do something because I don´t see how I can go on living like this much longer! SOS Please help me! SOS please help me…”



E para acabar em beleza, quem é o actor principal, senão Timothy Bottoms, que teve um divertido desempenho como George W. Bush, na sitcom do Trey Parker e do Matt Stone “That´s my Bush?” Passar de vítima de guerra para um dos presidentes mais falcões da história dos States! Aí está uma coincidência divertida! É a única coisa que me faz sorrir depois de ver este filme ás 6 da manhã! Este filme pode não te fazer sentir bem! Mas que é fodidamente brilhante, isso é!