quarta-feira, junho 14, 2006

Filmes que não me importo de ver "n" vezes


Nota: começa aqui uma nova rubrica, em que falarei de filmes que eu não me importo de ver e rever as vezes que forem necessárias. Mas evidentemente que não vou falar das escolhas óbvias. Os filmes que aparecerão aqui são antigos, e/ou pouco conhecidos e/ou “underrated”.

Na 1ª escolha já me estou a contradizer. Um filme de 1999 não é assim tão antigo, e um filme de Joel Schumacher com Nicolas Cage e Joaquin Phoenix não pode ser um filme pouco conhecido. Mas este não é por certo o papel mais notável do grande NC, o que é pena!

Nicolas Cage é Tom Welles, investigador particular, contratado pela viúva de um rico industrial para apurar a veracidade de um filme snuff, formato S8 encontrado nos pertences do marido, em que uma miúda de 16 anos é barbaramente assassinada à facada por um individuo com uma máscara S&M.

Pai de família recente, Tom começa a ter uma simpatia crescente quer pela vítima, quer pela mãe da rapariga, que vive sozinha sem saber que fim teve a sua filha. A sua determinação vai levá-lo a percorrer o universo underground da indústria pornográfica mais extrema da costa oeste e leste dos EUA. Primeiro em LA, onde trava conhecimento com Max Califórnia, um músico que procurou fortuna na Califórnia, mas que tem que ganhar a vida ao balcão de uma sex-shop (“I don't buy it. I don't endorse it. I just point the way.”), onde lê Truman Capote escondido atrás da capa de um livro porno. Max vai guiar Tom pelos antros dos prazeres mais sórdidos de Los Angeles. (“If you dance with the devil, the devil don't change. The devil changes you. “). Na Califórnia, Tom descobre que o agente de castings de filmes pornográficos Eddie Poole (o grande James Gandolfini) foi o responsável por arranjar a rapariga, que o realizador do filme é Dino Velvet, um realizador nova-iorquino de filmes S&M com tiques artísticos e estetas de cinema-arte (“He is the pervert man´s Jim Jarmusch”), e que o assassino é um dos actores favoritos de Dino, um homem que nunca tira a máscara e que se apresenta como Machine.

Continuando a sua cruzada na Big Apple, Tom e Max vêem-se ameaçados por Dino, Eddie, e Machine e pelo advogado do industrial, que havia contratado Tom, mas revela-se para surpresa geral (“Satan Ex Machina”) como a pessoa que foi encarregada de arranjar um snuff movie para o pervertido milionário. Da refrega, Max é morto, o filme destruído, Dino e Velvet matam-se um ao outro, Eddie, Machine e Tom conseguem escapar. Antes de regressar são e salvo para o lar, Tom vai dar caça a Eddie e Machine para vingar a rapariga e Max.

O filme curiosamente tem pouca violência gráfica explícita, salvo a que é deixada à nossa imaginação. Mesmo assim é um filme muito negro e sufocante, quer pela degradação dos bas fonds onde a acção se desenrola, quer pela presença constante de cenas tocantes e plenas de emoções fortes.

Destas, refira-se aquela onde Tom confronta o advogado Daniel Longdale (DL: “You’re going to die because of a dead nameless girl no one cares about or even remembers.” TW:“Her name is Mary Ann Mathews, her mother remembers her.” TW: “Did you watch the movie with him? Was he hard? Did he cum? Were you there holding his dick, giving him the old hand treatment while Mary Ann Mathews bleaded to death?” DL: “What do you want?” TW: “I want to know why would Christian want this? Why would he want a film of a... a little girl being butchered? “ DL: “He did it because he could!!”).

Ou ainda aquela em que ele só arranja coragem para matar Eddie ( Eddie: “You're not gonna kill me. You don't have it in you. What are you gonna do? You gonna shoot me with you own gun, huh? Registered in your name? You really fucking thought this through, didn't you, genius? You're gonna have to dig the bullets outta my head. That'll be nice, huh? Or you could dig a hole. Dig it with your own hands, and bury me in it next to your fucking girlfriend. Go ahead. Pull the fucking trigger. Well go ahead. What're you waiting for? Go ahead, do it! You faggot! What do you want me to do, start crying like a little baby? "Oh, I'm so sorry I killed the little girl." Well, fuck you, and fuck her! Go ahead! Put me outta my fucking misery! Pull the fucking trigger! Pull the fucking trigger! Do it! Do it! “) quando telefona à mãe de Mary Ann e lhe pede para lhe dizer o quão importante a filha era para ela (“Tell me what she meant to you! Tell me that you loved her! Please, tell me that you loved her!”)

Ou então o climax final entre Tom e Machine (Machine: “You know the best part of killing someone? The look on their face. It's that look. Not when they're threatened. Not when you hurt them. Not even when they see the knife. It's when they feel the knife go in. That's it. It's surprise. They just can't believe it's really happening to them. She had that look, the girl, when she knew it wasn't just porno. Can you feel how hard I am?”) em que este ao tirar a máscara revela ser uma pessoa perfeitamente normal (“What were you expecting? A monster?”), careca e de óculos, como um George Constanza musculado. Talvez a coisa mais marcante deste filme seja mesmo essa normalidade aparente de Machine, sem nenhum dos atenuantes que se costumam aplicar aos assassinos psicopatas nos filmes : (Machine: “Can´t quite put it around your head, há? I got no answers! Nothing I can say will make you sleep better at night! I was never molested, I was never beaten! My mother never touched me, my father never raped me. There's no mystery. Things I do, I do them because I like them! Because I want to!”).

Talvez seja só de mim, mas este filme diz-me qualquer coisa. Talvez para gostar deste filme é preciso ter uns parafusos bem soltos na cabeça! Mas a história interessa-me, e consigo ter uma simpatia muito grande para com as personagens. Com Tom e sua família, com Max, com Mary Ann e a mãe, mas também com a viúva de Christian e mesmo com a mãe de Machine, uma simpática velhinha viúva que saiu com o seu grupo religioso para a Igreja, e que por certo ficou destroçada quando voltou a casa e viu o seu filho único morto em situações misteriosas.

No fim, o final feliz possível para Tom.

Recomendo vivamente!

4 Comments:

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7:48 da tarde  
Blogger Inês Ramos tornou público que...

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7:50 da tarde  
Blogger Inês Ramos tornou público que...

E o que falta dizer…

1º uma mera questão técnica: O filme encontrado não é de 8 milimetros – lolada - (esta devia ir para “As mais belas traduções por Sérgio Andrade”) mas sim é S8 (Super 8) que é um formato a preto e branco frequentemente usado em filmes “caseiros” e filmes “indie”.
Fica aí a achega.
Depois há que louvar o argumento que pertence a um senhor chamado Andrew Kevin Walker que também escreveu entre outros, o argumento de se7en e Sleepy Hollow (sim, o que Tim Burton realizou), por isso mesmo é que sim, “Talvez seja só de mim, mas este filme diz-me qualquer coisa. Talvez para gostar deste filme é preciso ter uns parafusos bem soltos na cabeça!” é de ti e não é preciso ter parafusos bem soltos na cabeça. Considero-me uma pessoa normal e saúdavel mentalmente e o filme também me diz muito. Até porque se reparares este filme pode ser visto como tendo uma data de referências interessantes. Não é por acaso que a personagem de Cage, Tom Welles se chama Welles como Orson Welles, nem é por acaso que o realizador se chama “Dino Velvet” (Dino pode ser uma referência a Dino de Laurentis, produtor de cinema e o “Velvet” pode vir de “Blue Velvet”, um filme sublime do grande David Lynch.)

7:51 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

LOL!
Ok!
Agradeço a achega, e já está corrigido!:)
Essa do AKW era de se ter referido, mas escapou-se-me!
E sim, Blue Velvet é sublime, mas de todos os filmes do DL prefiro Lost Highway

8:50 da tarde  

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