sábado, junho 24, 2006

Céu Flamejante


Noite. As serpentinas ruelas da velha cidade pulsam de vida com a barulhenta e transpirante presença da multidão, organismo pluricelular, massa humana disforme e multifacetada.
Inicia-se o ritual. Como que precipitado pelos primeiros acordes canoros da mulher a solo, o ataque ao céu é encetado. Com um assobio riscos de todas as cores do mundo riscam o veludo negro da noite ribeirinha, felizes morrem com um estouro e precipitam pedaços de estrelas sobre a terra.
Breve, o espectáculo segue em crescendo. Os disparos terrestres adquirem outra cadência, novos padrões aéreos antes da sua consumação. Aqueles ondulam muito rápido como vida potencial observada a microscópio. Estes entrelaçam-se muito rapidamente sem nunca se tocarem. Aqueloutros sobem em grupos paralelos e morrem juntos.
Também o seu fim é diferente. Uns explodem em enormes cascatas matizadas, outros em pequenos estouros contínuos. E cada vez com mais força, velocidade e violência.
Assim salva por breves instantes da sua adormecida percepção da realidade, mergulhada no éter em chamas, a multidão é testemunha privilegiada de um pequeno Apocalipse localizado cujas consequências cessam antes de a atingir.
A banda que dir-se-ia estar a comandar a morte das estrelas aventura-se numa mui grande diversidade sonora. Alaúdes arabescos, sons sinos, percursões celtas. Como a banda do Titanic, continuavam tocando enquanto o mundo morria.
La grand finale, e o inevitável Richar Wagner. Intentifica-se o bombardeamento celeste, como se Deus disparasse a sua Magnun .45. Por uma noite, a noite deixa de ser noite, enquanto os andamentos Wagnerianos são cacofonizados por assobios e estouros dos arétes de fogo. Acima de nós tudo se torna verde. E agora dourado. E agora vermelho. E agora prateado. E agora
azul. E agora negro...