terça-feira, abril 25, 2006

Murchos

Comemora-se hoje a passagem de mais um ano desde o atípico Coup d´Etat português, suave como uma ibérica noite de Primavera, que derrubou o carunchoso, carcomido e há decadas decadente Estado Novo, que governava Portugal (e outras nações subjugadas à lei portuguesa) tal qual um pároco de aldeia, avaro, beato e castrantemente moralista.

Por certo nasci em liberdade, mas, e embora não esteja dentro de todo o proceso revolucionário, nem obrigatóriamente de acordo com toda a ideologia por trás dele, presumo de ter sido suficientemente ilucidado sobre a longa noite salazarista para estar grato. Grato por ser aqui, grato pelo ar que respiro. Grato por ir onde quiser, encontrar-me com quem quiser e dizer e fazer o que quiser em público, grato por poder ler os livros que desejo, os jornais e revistas que me interessam, grato por ver os filmes que quero, escutar a música que me agrada. Sem medo de denunciantes, sem medo de represálias, sem censuras, com textos integrais, sem medo de ser deportado, preso ou morto. Mesmo que a República Portuguesa pareça muitas vezes uma Anarquia Parlamentar.
D´après Churchill "Democracy is absurd, but all other systems are worse."
Big Brother is dead, buried and burning in fucking Hell! Amen to that!

Como me sinto assim, tenho pena que numa parte de Portugal não se comemore oficialmente o 25 de Abril. Alberto João não é nem nunca foi um democrata. É o primeiro a admitir o quanto ficou deslumbrado e atraído por Salazar quando saiu da aldeia e chegou ao continente pela 1ª vez. A sua ilha é o produto de uma democracia musculada, cujos jogos de poder não excluem coerção, pressão e mesmo ameças. Algo comum a certos e determinados pequenos municípios obscuros do continente luso. A democracia não deve ser adjectivada...perde a sua força. Já estamos habituados às suas declarações bombásticas e actos estapafúrdios; a democracia não lhe concedeu liberdade, mas libertinagem. Ele sente-se escudado. O partido a que pertence é - não o nego - grande e honrado, mas tem medo que, pondo AJA no seu lugar, venha a perder as eleições lá da terra dele.

E contudo...quem sabe ele não tenha razão? O facto de não se comemorar oficialmente o 25-A numa parte de Portugal, pode ser sinal dos tempos, um presságio da perda de impotância social da data, que para muita gente não mais é que um dia sem trabalhar.
Com o tempo as paixões esfriam-se, os ideiais desbotam, os juramentos olvidam-se. O comodismo entranha-se.
Quem viveu a Revolução está bem avançado na Meia Idade, na 3ª Idade ou falecido. Calam-se os pregões de Abril, as suas idéias parecem velhas e desajustadas. Os baladeiros hoje em dia estão desaparecidos, defuntos, ou pior, acomodados. Fazem concertos com os Da Weasel, os Clã ou os The Gift numa patética tentativa de cativar a juventude-morangos.
E, tão certo como a 1ª geração nascida depois de Abril, a minha geração, vê a sua juventude desvanecer a cada dia que passa, os cravos estão murchos e mortos, e em breve prontos para serem arrumados no canto bolorento da gaveta da memória colectiva, lado a lado com a data que evoca o nosso maior poeta enquanto metáfora do reganhar da autonomia face à coroa de Castela, e com a data que relembra outro processo revolucionário que culminou na queda da Era dos Reis, velha de 8 séculos.

O país está tão parado que em breve, tomado por cadáver, não faltarão larvas para o consumir. Atravessa-se uma gravíssima crise. Não só económica-financeira. Mas uma crise cultural, uma crise de valores, uma crise de identidade. Já não nos lembramos de quem fomos ou de onde viemos; ignorámos quem somos, seremos, ou para onde iremos. E estamo-nos perfeitamente cagando para o assunto; haja detrictos culturais para nos drogarmos e abstrairmos.