terça-feira, março 21, 2006

Festival without a cause

Julgo que todo o europeu moderno e cultivado concorda que o programa Eurofestival da Canção deveria ter sido extinto por meados de 1971, 1972. Quanto muito, europeístas mais empedernidos poderão lhe dar valor por ser o tipo de coisas que poderá ajudar a construir uma unidade pop-cultural comum europeia, que fará com que no futuro possamos ter um conceito que rivalize com o Americana dos US of A, mas a questão é que no dia de hoje o estafado certame musical já não tem razão de existir.

Mas note-se, eu falei em "europeu moderno e cultivado", o que, desde logo, elimina a maior parte da população portuguesa. Sério, no que dependesse de nós, ainda teríamos que aturar os enfadonhos Jogos Sem Fronteiras estivais, apresentados pelo Eládio Clímaco. Por tanto, nós por cá continuamos a dar grande relevo quer ao Eurofestival, quer ao Festival RTP da Canção, preliminar para se determinar qual será o representante luso na prova-rainha do piroso (inter)nacional-cançonetismo.

Pelo que me contaram, este ano houve grande polémica na votação do vencedor do Festival RTP. Pelo que sei, o vencedor é determinado pelo que se designa em tele-visionês como "a vontade do povo português", e que na nossa língua se traduz por "o vencedor, salvo se se der o caso de um dos concorrentes tiver um fortíssimo Factor C, será determinado por meia dúzia de tansos, que além de terem visto esta merda toda do princípio até ao fim-ou se calhar nem isso- ainda vão gastar tempo e dinheiro com chamadas telefónicas de valor acrescentado."

Porém, a votação deu um empate técnico entre uma música cantada por uma intérprete a solo- que mais tarde veio a saber-se ser a favorita do público presente no evento- e uma música cantada por uma dessas girls-bands que surgiram nos dias das Spice Girls, e ainda sobrevivem por aí. Ora, o desempate aconteceu, não pela marcação de pontapés da marca de grande penalidade, mas por decisão de um júri, liderado pela Fátima Lopes, que pelos vistos sabe muuuuito de música (reparem na forma como repito a letra "u", para vos traduzir o meu sarcasmo).

Para grande desgosto dos presentes, a super-costureirinha de luxo declarou a girls-band como vencedora. Até aí tudo bem. O problema foi a justificação dada pela Fatinha:

"Temos que mostrar que em Portugal há gente bonita e descomplexada".

Essa frase, apesar de ser de uma delicadeza duvidosa para a perdedora, fez-me pensar. A Fatinha abriu-me os olhos! Sempre pensei que um festival de música premiasse a força vocal do intérprete, a beleza melódica da canção, o efeito contagiante do ritmo, a profundidade e intensidade da letra, numa palavra, que premiasse a excelência musical da canção e do intérprete. Mas pelos vistos, segundo a super-costureirinha de luxo, resume-se tudo a dois factores: perfeição física e generosidade a destapar ao olhar guloso do júri internacional esses mesmos dotes "musicais".

Porém, eu, como ser imperfeito que sou de acordo com a dúvida cartesiana, tenho uma dúvida para a Fatinha:

Se há que mostrar na Europa que nós somos belos e descomplexados, porque é que a Miss Portugal que representa o país nos idiotas concursos de Miss Mundo, certames ultrapassados em que não interessa a Mulher como pessoa nem como ser pensante, mas, aí sim, como um naco de carne, costuma ser um camaféu de fugir???