domingo, outubro 30, 2005

Amnésia



...Acordo...
com o som distante dos sinos do campanário a dobrar as 8 horas da noite...
..Acordo com o trovão que rasga como uma lâmina assimétrica o veu fúbre do crepúsculo...
...Acordo...
quando a minha fronte é beijada pelas gotas gélidas da eminente tempestade...

Não sei quem sou. Estou deitado num descampado debaixo de uma árvore desnudada..a erva sob o meu corpo é fresca e húmida. Ergo-me com dificuldade. A chuva aumenta de intensidade...em breve estarei encharcado se não encontrar refúgio rapidamente.
Caminhando pelo descampado encontro uma estrada...um risco sinuoso e serpentino que conduz à cidade cuja silhueta avisto ao longe...as suas luzes são difusas e mínimas, como uma pequena vela ardendo no meio do bréu...

Não imagino onde estou, nem o que fazer...corro desesperado para a vila distante, andeando ali descobrir as respostas que procuro.
A pluviosidade é agora muito forte...ensopado, paro no meio do nada...tento-me lembrar (Oh eleonora) de algo, de uma recordação alegre ou sombria que me afaste esta cortina de incertezas...mas nada me vem à lembrança...só imagens deturpadas, enterradas no subconsciente...idéias muito fortes, sentimentos fundamentais (amor-ódio) e os sub-sentimentos que surgem da fusão deles...sensações de vida e morte...esses espectros que surgem na minha mente...serão vivências de dias passados? Ou serão antes reminiscências de sonhos, porventura pesadelos que não conseguimos nem sequer quero recordar.
No meio dessa parafernália cerebral, um e um só nome...Eleonora...ao qual não consigo conceber um rosto, uma data, uma idéia concreta...

"Espera..."

Uma voz estridente despertou-me do meu conflicto interno, para o mundo deserto e húmido que me circundava...

O meu coração palpitou...uma figura alquebrada vinda não sei de onde seguia a pouca distância de mim...
Um velho cego, dobrado ao peso de infindas décadas, arrastava-se notóriamente pela tempestade, levando um guarda-chuva na mão direita...

"Eu levo-te até à aldeia, meu jovem"...

nao pude deixar de tremer...a sua voz era fria e sepulcral...

"O meu guarda-chuva é grande e chove muito...eu abrigo-te."

(Que seja, gentil senhor)

Lentamente começamos a dirigir-nos em conjunto, com um pequeno tecto de pano a proteger-nos do rio diluvial que caia do céu negro.

"Eu não sei o meu nome..." arrisquei eu...

Seguiu-se um longo silêncio desconfortável...

"É natural, meu filho"...começou o velho..."esta estrada é longa e difícil...por vezes as pessoas perdem-se na sua imensidão...a monotonia, a insolação, a tempestade, pregam partidas à nossa mente."

(Isso não me ajuda nada...são os disparates de um velho ensandecido pelos anos...)

A nossa jornada continuou, lenta e silenciosa...

"Eis-nos chegados", disse, ao chegar-mos à entrada da aldeia..."continua agora...estou certo que aqui encontrarás quem te ajude a recordar o que preferes esquecer...

A chuva continuava...

"Espera...tens uma moeda que possas dar a um pobre e velho cego?"

Instintivamente meti a mão no bolso, retirando de lá uma moeda que coloquei na palma da mão seca que se estendia para mim...

"O meu nome é Caronte. Nesta terra poderás encontrar a tua Eleonora."

As palavras macabras do velho transformaram a minha cara numa máscara de espanto e terror...A imagem anciã esfumou-se à minha frente...

Sinto a minha cabeça descair para o meu lado direito, num ângulo anatómicamente impossível...
levo a mão ao pescoço e já nem reparo que a chuva parece não cair na vilória de arquitecura tosca e negra em que me encontro...passo a mão direita pelo pescoço e sinto-o queimado pela marca opressora da corda que me enforcou esta manhã.

8 Comments:

Anonymous mar tornou público que...

Fiquei sem palavras, tu és um poço de surpresas.... :) Beijosss

4:37 da tarde  
Blogger Miss I tornou público que...

Gostei muito! Apesar de achar que o fim ia ser algo do género, gostei imenso! Já li o texto todo 2x, parabéns! :)

8:37 da tarde  
Blogger Sara_VT tornou público que...

Tu de facto, consegues ser de uma imprevisibilidade desconcertante...Gostei muito!
beijinhos

10:41 da tarde  
Blogger A Besta tornou público que...

Sergy, continuo a achar que escreves muito bem. Era disto que eu sentia falta no teu blog. Muito bom. Eu sei que consegues escrever algo mais deprimente. ;).

9:18 da manhã  
Blogger NightWolf tornou público que...

Aqui esta um texto que me fez perder no tempo, na historia, no sonho... muito bom, parabens Sérgio ;) um abraço

12:07 da tarde  
Anonymous Milocas tornou público que...

... (sem palavras) ... :)

7:17 da tarde  
Blogger H. tornou público que...

Muito, muito Bom!
Parabéns pelo ambiente e história que soubeste criar. Muito visual e de uma carga emocional enorme.
Senti!

Wow =)
Tens de escrever ficção mais x's pá, tens talento!!!

***

10:20 da tarde  
Anonymous akira tornou público que...

Muito bom Sergy. Parabéns

2:51 da tarde  

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