segunda-feira, agosto 22, 2005

Pinóquio

"Do you want to visit my Never-Never Land Ranch?"

Há dias vi o Pinóquio do Roberto Benigni. Acontece que eu sou um grande fã dele, não só pelo fantabulástico A Vida é Bela, mas também pelos divertidos Johnny Palito e O Monstro , pelo que não fiquei desapontado, já que esta versão do Pinóquio tem o famoso toque cómico e ternurento de Roberto...

E no entanto, tenho que dizer que não aprecio de forma alguma a figura tradicional de Pinóquio!
Por norma abomino "contos de fadas" e "histórias de encantar". Para mim não passam de narrativas datadas e fábulas fascizóides, escritas em tempos idos com o simples intuito de travar a imaginação infantil e castrar a liberdade das crianças, submetendo-as às vontades e caprichos dos adultos, forçando-as a estarem quietas e bem-comportadas, fazendo-as assimilar certo e determinado comportamentos sob pena de sofrerem consequências terríveis, num mundo pintado em matizes básicas de preto-e-branco!

Nesse sentido, a história do menino de madeira é-me por demais intragável!
O que me aborrece sobremaneira é a obsessão de Pinóquio em ser "um menino como os outros!"
Mas quem é que decide o que é ser "normal"? Qual o mal de ser alternativo, ser independente, ser diferente, pensar pela sua cabeça? O que é feito da liberdade individual, bem precioso hipocritamente defendido por uma sociedade simbiótica? Porquê ser "um menino como os outros"? Qual a urgência de ser um clone, de se juntar ao rebanho, sacrificando o ego no altar da aceitação social? Porquê ser "um menino como os outros" tem que ser sinónimo de ser um "bom menino" e um "bom filho"?
Quem meteu naquela cabecinha de serrim do Pinóquio que ele tem que seguir os cânones estéticos, éticos, psicológicos e de comportamento social definidos pela cultura judaico-cristã do Ocidente?
Porque não ser ele mesmo? Ou ele não saberá que para que nos amem e aceitem como somos, temos que primeiro aprender a amar-nos e respeitarmo-nos como somos?
E outra coisa...quem diz que que faltar às aulas é sinónimo de nos transformarmos em burros?
Desde quando é que formação académica é sinal de cultura geral ou de um grau de inteligência elevado? Eu na escola e faculdade fartei-me de faltar e nunca chumbei na vida...
Afinal que raio de trabalho é que fazia a sua consciência, o Grilo Falante?
Por falar nisso, o Grilo tem que ser a personagem mais idiota do Mundo das Histórias de Encantar e dos Contos de Fada...
Eu até acredito em princesas que dormem 100 anos, princesas que vivem com anões e dormem comendo maçãs e acordam com beijos de um gajo que nunca viram na vida, fadas-madrinhas azuis, bonecos de madeira vivos, países governados por uma monarquia de cartas de jogar (naipe de Copas), abóboras que se transformam em carroças mas....
GRILOS A FALAR? E A TER CONSCIÊNCIA?

Hellooo, os grilos são insectos, e não me parece que os insectos tenham uma inteligência que lhes permita falar, e separar o certo do errado...os grilos só cantam...
Logo, um grilo nunca poderia ser a consciência crítica de um miúdo...se não acreditam, vejam esta história verídica...há alguns anos atrás (ok, sejamos dramáticos, há um quarto de século atrás), os meus pais deram-me um grilo numa gaiola, dos muitos que se vendem na Feira da Festa do Senhor de Matosinhos...hoje em dia eu considero vender animais vivos em gaiolas uma crueldade, mas na altura achei-lhe piada...de noite os meus pais deram-lhe uma folha de alface para comer...estando eu sozinho com o grilo, na minha inocência e bondade infantil, reparei que os meus pais não lhe tinham dado água, como faziam aos nossos cães...vai daí, decidi matar a sede ao grilinho...ENCHENDO-LHE A GAIOLA DE ÁGUA!
E o sacaninha preto nem disse nada...deixou-se afogar pela água que saía da torneira que eu lhe estava a dar com a melhor das intenções do meu puro coração de infante....

Que raio de conselheiro é este?

4 Comments:

Anonymous castor tornou público que...

Ó Sergy, a parte do grilo foi chata. Mas concordo contigo no resto. Que mania que a sociedade tem de travar o crescimento espontâneo e natural de uma criança. Se é criança, é inocente. Se já não é inocente, é porque já aprendeu com os adultos a não sê-lo. Rôda-se, tu fazes uma introdução de ti próprio simplesmente genial no blog. Adoro ler essa parte. Um abraço. P.S. - Queres uma lourinha? Uma morena? Vai aparecendo. Tenho cervejinhas para o pessoal.

2:55 da manhã  
Anonymous castor tornou público que...

P.S. - Já vi que passaste pelo Dique e já pegaste numa.

2:57 da manhã  
Blogger Sergy tornou público que...

Thanks Castor!:)
Espero que seja SuperBock, mas qq uma é boa para mim!:)

1:02 da tarde  
Blogger H. tornou público que...

Nca tinha lido uma análise do Pinóquio tão curiosa. Já ñ vejo o filme há uns anitos e nca vi a versão do Benigni ms msm assim...

"O que me aborrece sobremaneira é a obsessão de Pinóquio em ser "um menino como os outros!"
Mas quem é que decide o que é ser "normal"? Qual o mal de ser alternativo, ser independente, ser diferente, pensar pela sua cabeça? O que é feito da liberdade individual, bem precioso hipocritamente defendido por uma sociedade simbiótica? Porquê ser "um menino como os outros"? Qual a urgência de ser um clone, de se juntar ao rebanho, sacrificando o ego no altar da aceitação social?" - EXCELENTE!
me/ aplaude vigorosamente!

é mesmo isso!

10:19 da tarde  

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