terça-feira, março 08, 2005

Dissertação sobre dores alheias!

Às vezes, invade-me a desagradável sensação de desejar ter feito mais por ti! Pudesse eu haver-te abraçado num casto e doce amplexo, em que o sentimento era ambivalente, contraditório até, mas puro, e talvez a tua dor fosse amparada, e o teu choro controlado.
Por nutrir por ti tão fortes sentimentos eu senti dor quando testemunhei numa discreta fila traseira o teu coração a partir-se novamente.
Sofreste num silêncio estóico e eu sofri por ti, também, numa sussurrada empatia transcendental!

Não posso ficar indiferente ao estilhaçar dos sonhos dos meus próximos, às lágrimas que escuto na minha casa!
Quiçá só ganharia em tornar-me indiferente à dor que não me atinge directamente, cerrar meus ouvidos aos gritos que o vento sopra pelo ar!
Fechar meus olhos ao sangue que jorra das paredes circundantes! Caminhar isolado, e ignorar os apelos do exterior! Mas não consigo! Não pretendo morrer pelos pecados dos outros, como um Cristo do Novo Milénio! Mas gosto de ser o quebra-mar da solidão dos que me são queridos, o pára-raios das tempestades de Inverno. Pateticamente, espero correspondência de todos, e tal não é um dado adquirido.

Mas é difícil! Levantar alguém que está caído, ferido no chão é um exercício hercúleo!
Desde logo, ao pretendermos ajudar, invariavelmente vamos ter que lhe provocar dores inevitáveis, um mal necessário!
Se não soubermos levantar o ferido, podemos provocar-lhe dores horríveis e desnecessárias, abrir-lhe feridas, e inclusive causar-lhe a morte.

Quando somos nós o ferido, as boas-intenções dos amigos, as suas palavras mansas não raras vezes irritam-nos, desafiam o nosso abismo.

Mas tenhamos nós a força de as aceitar!