terça-feira, fevereiro 22, 2005

Dissertação Blue

Há chuva novamente, e os céus são cinzentos.
Quando eu olho o céu plúmbeo pairando como uma aura negra sobre a minha cidade, só consigo pensar, com um sorriso amarelo de doentia ironia:
"O Céu veio disfarçado de tundra para o Carvaval, mas veio atrasado..."
Porque de resto, o céu parece uma tundra etérea...estéril, desértico, sem nenhuma esperança de vida. A idéia de dias vindouros solarengos é uma miragem logo desmentida quando vislumbro este céu.
A chuva que cai não é muita...mas é fria e desagradável...pica como agulhas invisíveis.
Estive a caminhar na hora de almoço, e apahei chuva. É algo que gosto, porque me faz sentir vivo. (Pode-me vir a fazer mal, mas faz-me sentir vivo no momento! E eu sou uma criatura do presente. Como tal gosto de imensas coisas que me fazem sentir bem, me fazem sentir vivo no momento, embora a longo prazo provavelmente significarão uma gripe, uma doença ou pior...).
O vento gela-me os ossos e ultrapassa a espessura do meu casaco de couro e do meu cachecol negro da Burberry. Odeio estes dias de merda. Mas odeio os dias de sol ainda mais.
Atravesso uma pontezinha de São Mamede, suspensa a um bom par de metros sobre terrenos de cultivo, quintas com animais e outros elementos que parecem saídos de uma naif pintura bucólica. Muitas vezes pensei..."se me atirasse daqui, será que morria? partia vários ossos? Ou tornava-me paraplégico?" São ponderações macabras que nunca transporei para a realidade. Por vezes aterrorizo-me com o que sou capaz de pensar. Por exemplo, há dias estava a fumar um cigarro (só de tabaco) e aproximei a ponta acessa do cigarro da minha mão direita e pensei : "Se eu me queimasse, quanto tempo aguentaria com o cigarro encostado à carne? Teria dores crucificantes? Ficaria com cicatrizes permanentes?"
Acho que dias como os de hoje fazem transparecer o verdadeiro eu.
E o verdadeiro eu é oco, vazio e frio. Nada a ver com o que aparento ser, nada de piadolas frívolas e estúpidas, nada de me rir parvamente por tudo e por nada.
O dia de hoje é horrível em todos os sentidos, uma sucessão de pequenos acidentes e aborrecimentos enormes de todos os quadrantes! Realmente odeio o meu emprego. Dá-me uma sensaçao de vazio. E o vazio ainda se sente pior que a dor. A dor faz-nos sentir que estamos vivos...em sofrimento, mas vivos. O vazio dá-nos vertigens. Todos os dias no meu emprego sinto-me num limbo. Há pensamentos que eu não consigo deixar de ter. Idéias de grandeza destroçadas sob o peso dos anos e da crua realidade.
Nada na vida me consegue fazer realmente feliz, por mais que tente. Na melhor das hipóteses, gosto de coisas, tenho hobbies com os quais consigo disfarçar, alienar...são paraísos artificiais e momentâneos. Por isso é que eu sou uma criatura do presente.
Amanhã viverei para enfrentar mais um dia..eu sei que sim, pois eu no fundo sou forte. Se não fosse, hoje seria o dia do meu suicídio, pois hoje sinto-me muito mal, e o problema é que sinceramente não sei porquê!

QUE SE FODA, AMANHÃ TEM QUE SER MELHOR, SEM DÚVIDA!

4 Comments:

Anonymous Anónimo tornou público que...

Nem sei que te diga. Vou hibernar até sexta, então. Não tiro as patinhas de casa para nada... Nem que o Quentin Tarantino vá ao Fantasporto!

Polly - Still pining for the fjords

6:54 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Pois...eu também hibernava até 6a!Mas não posso:(

8:00 da tarde  
Blogger Dr. Hee tornou público que...

Então? Não te deixes ir a baixo, fuma um cigarro. Olha, eu não fumo nem bebo e à conta disso já me lixei várias vezes. É fodido não ter escapes socializantes, muito fodido. Eu bebo um chá de cidreira e fico a ver o cio dos gatos no telhado da garagem.

8:29 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Lol!
Eu dizia-te o que fumava, Dr Hee, mas hoje não tenho;)
Mas thanks!

8:43 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home