quinta-feira, janeiro 06, 2005

Retorno a casa

Haverá sonho que se equipare?
Não, nenhum desejo oculto e recalcado do subconsciente alguma vez poderia recriar a sensação de alívio e a alegria pura, quasi-infantil que me preenche a alma.
Desta vez a realidade é bem mais prazenteira que a alegoria nocturna, e nem a pena do poeta, nem a a palete do pintor poderiam sequer começar a evocar o que sinto!
Retorno a casa, após dois anos no interior do Inferno! 650 dias apocalípticos, e relembro cada dia como se fosse ontem...cada tombado...o eco do trovão, os gritos que nunca cessam...as visões fundem-se numa única mancha vermelha...os sons unem-se na maior das cacofonias...assim encorpadas, todas as minhas memórias se enclausuram na minha caixa craniana, mas mesmo assim não atrapalham a minha felicidade, enquanto a brisa nocturna afaga minha cara no regresso a casa.
Em todas essas centenas de dias e noites, em que o esforço e o medo eram apurados ao seu calibre máximo, uma centelha de esperança, a esperança de voltar a casa alumiava o nosso caminho de trevas...um sonho que os homens sonhavam em comum, mas que raros alcançariam...a noite embraça-me com o seu manto de frio e escuro, mas eu sinto-me feliz...essa felicidade acalma um pouco o tumulto que não se cala..evoco o dia em que perdi a inocência...no primeiro dos 650 dias, minha pureza, minha juventude foi-se...passado uma semana, o primeiro espectro ergueu-se diante de mim, quando matei alguém pela primeira vez...que cubos de gelos suplicantes eram seus olhos...oh, o som gutural que exprimiu na sua lingua natal...limpei minha testa do meu suor e do sangue dele..e das nossas lágrimas...tive consciência que matei cerca de 12 seres humanos...jovens como eu, cujos sonhos e esperanças foram celeramente decepados, enquanto caiam na cinza e pó...
os amigos que eu fiz...também eles caíam...e os seus gritos ecoarão pelos anos...o meu cérebro é agora um pedaço de gelo enorme...éum mundo glaciar...um mundo onde só a dor, sofrimento e morte sobrevivem, uma ímpia trindade...as recordações estão gravadas a ferro quente na minha memória...cada uma é uma cicatriz reflectiva, sangrando pesar e remorsos.
O Inferno de onde eu vim, tal como qualquer outra agrura da vida torna-nos religiosos e filósofos.
Que Deus pode permitir tamanha barbárie entre seres criados à sua imagem e semelhança?Mas é dificil recusar linearmente a sua existência, quando o cheiro de sangue e decomposição e pólvora enoja nossos pulmões, e nossos tímpanos são quebrados por guinchos animalescos de homens feridos, homens moribundos que clamam pela mãe, ou por qualquer outra ajuda divina ou externa. Ali aceitamos Deus como os povos antigos aceitavam...um Deus que existe, mas é cruel e distante, honra os bravos, despreza os cobardes...vimos Deus como as civilizações greco-romana ou vicking viam!
Tornamo-nos também filósofos, filósofos apocalípticos, quiçá? Pensadores negros, que defendem uma existência minimalista...nos momentos em que não havia perigo, falamos de muita coisa, da perspectiva com que vimos agora a vida, falamos de projectos, de pessoas que deixamos e para os quais queremos regressar. Vemos a vida como a nossa única riqueza, aquela que temos que preservar. Tornamo-nos homens primordiais, com instinto de sobrevivência a reinar sobre qualquer convenção social....

Mas o Inferno é findo...

chego agora a casa...minha família espera-me ansioso...minha mulher, meu filho que tem agora 5 anos, meus pais...

todos na capela chorando compulsivamente sobre o caixão embandeirado onde meu corpo destroçado repousa...tento chamá-los, mas eles não conseguem ver para além do físico e do óbvio...

ainda não voltei a casa...à minha verdadeira casa...já não pertenço aqui...olhando meus amores pela última vez, abandono a capela, para retornar a casa...onde meus camaradas amigos e inimigos me aguardam...estou contente...a minha turbulência interna já não é...a noite fria brilha com promessas celestes enquanto eu começo o longo, árduro caminho para casa e para a duradoura paz!

2 Comments:

Blogger Inês Ramos tornou público que...

"The Unknown Soldier..." - Gostei deste conto que me trouxe à memória todos os filmes e todos os cenários de guerra a que assisti... Como era bom que não houvesse tanta gente a lucrar com a guerra... Assim, a guerra acabava...

12:55 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Is this war I am talking about?:)

2:08 da tarde  

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