segunda-feira, janeiro 03, 2005

Quão negra é minha palete

Contemplo a pureza alva da minha tela por 2, 3 minutos.
Descobri que essa contemplação pré-arte desperta minhas musas, liberta meus fluídos criativos, e ajuda-me a preencher o vácuo.
Nervosamente toco na tela com os dedos da mão direita; um roçar suave com as pontas digitais, como se na face de minha amante. A minha carícia torna-se mais física quando belisco a pele branca e sinto a tela entre o polegar e o indicador.
Sou um pintor. Por gosto e necessidade. Se tivesse estudos seria um auto-didata. Mas não tenho. Não conheço as correntes e escolas da pintura, não sei o que é pintura abstracta, realista, cubismo, nem nenhum desses termos complicados. Só conheço em todo o mundo cerca de uma dúzia de quadros que consigo identifcar por nome e autor.
Não tenho estilo definido, tanto pinto naturezas mortas, como retratos, como estados de alma.
Eu pinto o que sinto, e eu sinto o que pinto. Gosto de pensar em mim como um pintor nato. Vendo na rua excertos de minh´alma, com o que compro alojamento, comida e material de pintura.
Nunca passarei disso, nunca terei uma vernisage. E no entanto, tal esteve perto. Um marchand de arte aproximou-se de mim, uma vez. Comprou um quadro que eu tinha pintado na semana anterior, após um sonho alucinogénico. Era um mostrador de relógio, com asas de anjo pairando sobre um mar de mãos acenantes. Chamei-o singelamente de "Tempo Alado". O marchand utilizou termos caros, de connoisseur. Disse que via no meu trabalho, naife porém árduro, uma certa beleza negra, uma urgência apocalíptica, com toques Daliescos.
Aceitei o elogio dei-lhe o meu contacto, e esperei voltar a ouvir falar dele...nessa noite os meus sonhos foram irrequietos, via-me reconhecido como um grande pintor, e o meu sono era leve e teimoso.
Uma semana depois soube que o marchand tinha morrido, e os meus sonhos de grandeza morreram com ele. Soube nesse dia que a minha vidinha seria patética e mediocre, mas pouco me importava...era feliz com a pintura, minha única e exigente amante.
Mas tinhas que aparecer Tu...o meu amor por ti era...estranho. Nem sequer nos conhecemos. Não sei o teu nome. É um amor artístico.
És sem dúvida a criatura mais bela que já vi...um quadro vivo, pintado pelo Grande Artista, no seu dia mais glorioso.
Paraste para apreciar os meus indignos quadros...indiferença...foi tudo o que demonstraste.
Não dormi naquele dia..como fazer uma estrela apaixonar-se pela erva rasteira? Vi-te no dia seguinte na praça...uma deusa caída, arte em movimento...
Fiquei uma semana sem pintar...o meu dinheiro começou a escassear.
Fiquei um dia na cama...a minha febre eras tu...senti-me a deslizar, pra longe, para fora do meu corpo...até que vi tudo claramente.
Só havia lugar para um amor na minha vida...Saí para te procurar, dar-me a conhecer

Olhei a tela. Possesso começo a pintar...
Demorei duas horas...a tela está negra! Total e completamente negra como o meu estado de espírito!
Observo-te caída no chão...tão bela na morte como na vida...o meu derradeiro e total sacrifício por amor à arte!
Um último toque...o frasquinho onde guardei a tua vida...a vermelho pinto em toda a extensão da tela negra o nome que imaginei teres.
Orgulhoso observo a minha última obra-prima!
Sorrio! Consegui captar-te em toda a tua plenitude. A tua aura, a tua energia vital!
Depois tudo se torna confuso...

3 Comments:

Blogger Inês Ramos tornou público que...

Muito interessante e inquietante. Neste conto, o facto de não haver descrição explícita do crime dá margem ao leitor para imaginar o que muito bem lhe aprouver.
Torna o conto sério e sincero.

Desculpa, mas eu considero que contos explícitos e macabros como a trilogia do natal ou da "Amélia", já para não falar daquele em que matas a Inês Castel-Branco (onde raio é que o diabo do rapaz vai buscar estas ideias estapafúrdias???) são hilariantes na medida em que o burlesco-grotesco de tão exagerado e inverosímel torna-se cómico em vez de trágico. Esta é a minha muito humilde opinião... Espero que a encares na óptica constructiva em que foi forjada. Bj0s

2:17 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Agora é que ultrapassaste a linha, Raminhos!
Levar na óptica constructiva? Não levo! não mandas em mim! Não me podes obrigar! Vou fazer birra e amuar! Jã não falo mais contigo! Toma lá que já almoçaste!

Agora a sério! Os contos anteriores não era suposto serem cómicos nem trágicos...quis-lhe dar uma imagem kische, gore, e o camandro! Estilo Tales from the krypt!
Ms talvez futuros contos sejam mais intimistas, como este e O "Mar e os teus Olhos"!

5:51 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Quanto às ideias estapafúrdis, deve-se tudo à minha musa mais negra!:)

6:23 da tarde  

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