sábado, janeiro 01, 2005

O Fabuloso Destino de Amélia : I - Infância Infeliz

(Nota prévia...eu nunca vi O Fabuloso Destino de Amélie...nem sei do que trata...este texto não tem nada a ver com isso...é só para gozar)


Quando Amélia nasceu, teve o azar de o fazer no seio de uma família disfuncional, pobre em riqueza e sentimentos. Era a mais nova de três irmãos...nenhuma das gravidezes tinha sido desejada ou planeada...antes de Amélia nascer, a mãe teve um aborto, resultante de uma das habituais sovas conjugais...Amélia não teve a sorte do irmão nado-morto.
O irmão mais velho emancipou-se (fugiu de casa) aos 15...a polícia encontrou-o. Três meses depois, fugiu de novo...desta vez os pais nem se preocuparam em chamar a polícia. O pai ficou aliviado...o jovem estava a tornar-se um homem forte, e era rebelde, na fronteira do violento, e com indícios de sadismo, ao mesmo tempo que tinha dentro de si sentimentos recalcados de ódio pelo pai, e desprezo pela mãe, por se rebaixar a ser escrava dele.
Fugiu, e diz-se que saiu da cidade.
O pai de Amélia era um daqueles homens que, nascido no fundo, em vez de se tentarem erguer, sofrem a atracção do abismo. A vida para ele era ficar desempregado em casa, abstrair-se em álcool barato, e viver do parco salário da esposa. Era um ser mesquinho e violento, e apesar de as suas sevícias à mulher e aos filhos nunca terem tido um cariz sexual, adorava o espancamento e a tortura psicológica.
Tinha-se casado jovem, com a mulher grávida do primeiro filho. A mãe de Amélia fora antes uma mulher bela, e forte, mas o marido minara-lhe o espírito e o amor pela vida. Era um destroço amorfo e não reactivo, com olhar cheio de nada.
Amélia sempre vira na irmã mais velha, um clone da mãe..namorava e planeava-se casar, não por amor mas para fugir daquele lar unido por uma miragem...Amélia conseguia ver a irmã, daqui a uns anos, cheia de filhos, gorda e com os olhos inchados de chorar, como a mãe delas!
Mas Amélia era diferente...era boa aluna, e os seus sonhos eram lindos, e eram altivos...nascida numa capoeira, sonhava cruzar os altos céus, alas abertas como uma orgulhosa águia real!