segunda-feira, janeiro 03, 2005

Num quarto escurecido

Silêncio e trevas...

eu estou cansado, tão cansado, e o silêncio e as trevas agradam-me e abafam a minha exaustão.
Mas não abafam, antes realçam a minha solidão...
Nestes meus aposentos escurecidos estou bem, confortável.
Relaxo, mas o meu sono será leve e o meu repouso incompleto!
Aqui sozinho, penso em outros tempos, outros locais, outras pessoas.
Minha memória é palco de uma sangrenta guerra aberta entre reminiscências de momentos de felicidade e reminiscências de momentos amargos; uma guerra longa, renhida, entre dois opositores de igual valia, e de desfecho imprevisível!
Algures no meu peito, um drama de outro cariz toma lugar : um sempr´eterno e épico Grand Guignol desenrola-se no meu coração, uma peça de gosto duvidoso e coreografia previsível, pois sou eu a única e última vítima de cada um dos sketchs sangrentos interpretados para excitação mórbida de uma plateia vazia, sedenta de sangue.
Neste meu quarto escurecido, enaquanto um sono mais profundo não se apodera de mim, eu gosto de filosofar...sobre a minha vida, sobre o tudo que nunca alcancei, sobre o nada que criei...
é amargo este quarto, faz-me relembrar todos os erros da minha vida, todos os momentos que foram pontos fulcrais de viragem.
No meu quarto escurecido, mil vezes imagino o que deveria ou poderia (ou não) ter dito e/ou feito, e as consequências de tais actos..a forma como a vida se desdobraria de diferente maneira, os desafios que teria tido, as lágrimas que teria vertido, os risos que teria dado.
Não quero sentir-me triste. No passado tive bons momentos...momentos de felicidade, de tocar o céu...a minha infância, abundante em amor, os meus primeiros amores, as amizades que criei...
Porém a vida, essa cruel tutora ensinou-me uma lição dura: os dias de Verão têm invariávelmente que dar lugar às estações frias, e as saudades estivais ardem mais que as dores de Inverno. ("Oh, eu não era assim...como me tornei tão amargo? Quando era jovem, eu vivia cada dia com a alegria e a certeza do dia seguinte ser melhor que o anterior. Não sou o que eu gostava de ser, sou o que os outros e as situações que vivi quiseram que eu me tornasse".)
No quarto escurecido, conto as minhas cicatrizes, visualizo tempos, pessoas, locais!
Faço-o desapaixonadamente, só por pura curiosidade..sem ódio, nem rancores antigamente recalcados....
Começo a arrumar pensamentos, ordenar situações, catalogar sentimentos, arquivar pessoas...por ordem alfanumérica, por ordem de importância....
Relembro com clareza factos obscuros, situações olvidadas!
Este exercício acalma-me um pouco; reconsidero posições...remoer sentimentos não me parece benéfico...aclaro idéias...ignoro os outros, viro o meu pensamento para a auto-crítica.
Chego á conclusão que se não alcancei nenhum dos sonhos do passado, pelo menos vivi dignamente, à minha maneira, sem prejudicar propositdamente ninguém...
tive as minhas alegrias e dores, feri e fui ferido...
E neste quarto escurecido, longe do mundo e de tudo, liberto-me e encontro a paz!

2 Comments:

Blogger Inês Ramos tornou público que...

Posso estar enganada mas tudo aqui leva a crer que foste mais que meramente filosófico, e sim, enveredaste pelo campo do introspectivo. Gostei da subtil homenagem a Skid Row e à minha música favorita dele.
Way to go, dude! ;)
P.S. - Temos que ir ver aquele filme chalado dos «teens» étnicos que entraram nos outros filmes de adolescentes.
Bj0s

4:54 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Este texto tem uma aura sobrenatural, mas não é bem um conto, é uma reflexãozita sobre a vida.
Para mim, o narrador é um morto, e o quarto escurecido, o seu caixão, mas pode ser uma pessoa a reflectir antes de dormir, um doente terminal no hospital, alguém em coma, um cego ou o que bem entenderes!

7:46 da tarde  

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