domingo, janeiro 09, 2005

Momentos dissonantes e desconexos de solidão

A praia é fria no Inverno...é deserta, a areia é húmida, o vento é fresco, o mar ruge feroz, até as próprias gaivotas gritam com uma nota dissonante de fim...parece uma casca morta, a cena de um crime há muito abandonada...gosto de andar pela areia moldada, deixar as minhas pegadas na praia deserta...pego num pau morto, escrivinho arduramente o teu nome na areia...uma onda rápida e gélida vem, apanha-me de surpresa, molha-me as pernas e erode o teu nome.
Afasto-me um pouco de onde o mar começa. Viro-lhe as costas. Corro para casa.

Uma casa vazia é como uma praia deserta. É contra-natura.
Não sei o que fazer com todo este tempo livre. Gostava que podesse ir já para o trabalho, bloquear momentaneamente o que me consome o cérebro!
É noite e eu sinto sons estranhos...barulhos...passos...o meu quarto solitário é um inferno negro....a caixa de Pandora está aberta....puxo os cobertores sobre a cabeça...suo...fecho os olho...tento bloquear a sonoridade sinistra da noite...horas de insónia e inferno..esperando pelas doces luzes da alvorada...

A cidade é uma casa assombrada, cheio de fantasmas que rumam monocórdicos e rotineiros. Falto ao trabalho, por puro tédio. É esquisito andar sem rumo e sem destino, ignorar responsabilidades, esquecer deveres. É esquisito andar pela baixa da cidade, bem longe do escritório, durante a semana, sem programa definido, salvo estourar essas horas de hedonismo e egocentrismo, que não raras vezes se revelam vazias. Acabamos por preferir ter ido ao trabalho, fazer o que esperam de nós, falar com os nossos colegas...

Uma sala de cinema é uma cidade...uma cidade escura e silenciosa, em que todos ignoram todos. Ir ao cinema deve ser a segunda coisa mais estúpida que se pode fazer sozinho. Sentirmo-nos sós durante uma hora e meia, duas horas...completamente abandonados do mundo...não ter ninguém com quem comentar o filme, não ter ninguém com que debater no final. Saímos mudos e calados da sala escura, e retomamos a nossa caminhada...

Uma viagem sozinho é um filme...um mau road movie, mas de final não previsivelmente feliz à Hollywood. Mantemo-nos de olhos abertos e fixos na estrada, e fazemos o melhor para nos mantermos acordados...os faróis iluminam o deserto de alcatrão que se estende à nossa frente...ouvimos música ou falamos para nós em voz alta, para quebrar a melancólica solidão.


3 Comments:

Blogger Morte Negra tornou público que...

Gostei!
5 momentos de solidão pura, bem retratados!

11:38 da tarde  
Blogger A Besta tornou público que...

Não és a unica alma perdida. Não tás sozinho na solidão, mas tás só. Tantos que estão assim mas nunca se encontram, as almas solitárias nunca se encontram porque pensam que estão sozinhas.

3:31 da manhã  
Blogger Sergy tornou público que...

Eu concordo contigo, Besta, mas eu quando escrevo no meu blog não estou obrigatoriamente a falar de mim...claro que há algo de pessoal que escapa sempre...mas não costumo ir ao cinema sozinho, e nem sequer tenho uma casita assombrada...mas curtia:)

7:54 da tarde  

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