sábado, janeiro 08, 2005

A atracção do abismo

Quando o inferno é o que é em nós, a alienação pode ser um agridoce afrodisíaco...por minha vontade...

Escapo!

...doces miragens. É o que eu vejo, como alguém que perdeu a rota, ensandecido pelo deserto...vejo cores, formas, imagens, sonhos despertos, emoções encorporadas...
No céu matizado com as cores do arco-íris, encontro Deus!

...doces músicas. É o que eu escuto, as trompetas divinas. Violinos, cravos, harpas, em ritmado frenesim, caos controlado. Harpas angelicais, encetando a sinfonia da vida, sussurada à minha orelha.

...doces aromas. É o que invade meu olfacto, minhas narinas sentem o perume esquisito de flores extintas na noite do tempo, de plantas criadas do choque primordial, de exóticas e remotas frutas.

...doces sabores. É o que eu saboreio, o céu da minha boca é pantagruélico, doce, margo, salgado e picante.

...doces formas. É o que as pontas de meus dedos tocam, formas de vários contorno e desenhos.

Sou eu e sou muito mais que eu. Toco o infinito...

E depois acaba!

Há um preço enorme a pagar quando como humanos ousamos ansiar o céu. É brutal essa queda, o despertar, o voltar à realidade. É como recriar as agruras de uma morte horrível, vezes sem conta, e em nenhuma delas encontrar a paz.
O artifício que me antroniza reduz-me à escravidão, quando eu beijo brutalmente a terra. Impacto profundo, sinto a carne a rasgar e os ossos a quebrar. Vejo que me enganei..estão intactos.
O artifício cresce comigo, e eu cresço com ele, cresce em mim e eu cresço nele...não nos podemos separar, tornamo-nos parte de um só, uma dualidade estranha e doentia...a ausência é atroz...vagueio como uma sombra dorida, um morto vivo que não aceita a mortalha e o caixao e o húmido abraço da terra...arrasto-me até voltar a ter novamente o que anseio.

E tudo se repete. Quando tenho aquilo porque anseio, eis-me às portas temporais de um cruel simulacro, um paraíso que não existe, uma farsa perigosa, uma alegoria abstracta. Escapo e sonho que sou feliz...e contudo, sei que amanhã tudo será ainda pior.

Sei que este artifício será a minha morte...mas não passo sem ele, pois grande é a atracção do abismo!