quarta-feira, dezembro 22, 2004

Triologia de pequenos contos crueis de Natal : III - Um cruel adorno na árvore de Natal ou Have Yourself a merry little suicide!

No dia em que Rosinha faria 14 anos, muito tempo depois de terem cessado as buscas e as esperanças, um mês antes do dia em que se completariam cinco anos desde que Rosinha havia sido vista pela última vez, a sua mãe, ensandecida pela dor e desgosto, terminou com a sua vida.
O homem quebrado que tinha sido o pai de Rosa chega a casa e depara-se com o cenário que temia nesta meia-década que havia passado desde aquele fátidico 19 de Dezembro.
O corpo sem vida da mulher. Um frasco de tranquilizantes vazio.
Uma carta!
"As amigas da Rosinha já se estão a tornar mulherzinhas autênticas. Algumas namoram já. O nosso bebé nunca cresceu, será sempre uma menina, perdida no tempo. Amo-a muito!

E amo-te muito! Perdoa-me!"

O homem solitário não chorou! Já não tinha coração para sofrer mais dor! Já o esperava! A vida de ambos tinha acabado há 5 anos! Jã não tinham vida sexual, amavam-se mas escondiam-no muito bem!

Desta vez houve funeral, pode-se cumprir o luto!

O homem passou a vida entre o emprego e a casa.
Segunda-feira a sexta-feira, tudo igual. Como ele odiava os fins de semana, os feriados e as férias! Se pudesse trabalhava todos os dias! Trabalho, trabalho, trabalho! E alcóol também!

Três decadas passaram, céleres e lentas!
Aos 65 anos, o homem foi obrigado a reformar-se!
E a única coisa que ele tinha na vida foi-lhe tirada!

No Natal desse Ano, o pai de Rosa saiu à rua. No dia 24. O que não acontecia há muitos, muitos anos.
Passou num jardinzinho abandonado. Dentro dos seus lares, as famílias celebravam o Natal. Celebravam o amor e a companhia de entes queridos.

As árvores estavam decoradas com luzes natalícias.
O homem aproximou-se de um castanheiro, despido de frutos, engalanado de correntes de luz.
Andou meio metro. Atrás do banco de jardim, um escadote de três degraus que tinha deixado lá na noite anterior.
Subiu o escadote, tirou a corda do bolso. Aproximou-a de um ramo forte.
As mãos tremiam, a visão não ajudava.
Demorou uma hora para pendurar a corda no ramo. Mas conseguiu-o!
Engalanando-se com a corda, com um pequeno impulso, chutou o escadote.
E o homem reencontrou-se com os seus!

Quinze minutos depois, o homem mais novo descobriu o velho! Dependurado da árvore, ("pois é Feliz Natal não é para todos como te comprendo meu velho") como um cruel enfeite.
Com carinho, o homem mais jovem retirou o cadáver da árvore.
Retirou as suas prendas ("um relógio e 20 euros na carteira tavas mal velho filho da puta").

Um último toque. O homem de meia-idade retirou uma navalha de ponta-e-mola do bolso. As suas mãos de heroinómano tremiam. Aproximou a lâmina do pescoço do velho, queimado pela corda, e atavalhoadamente ("como o meu pai exactamente como o filho da puta do meu velho deixou-me sozinho no natal e levaram-me levaram-me para o sítio sítio escuro sítio mau homens maus não me bata mais não me faça isso porfavorporfavorporfavor") destroçou a carótida do morto!
Um sorriso vermelho na garganta do velho!

Joãozinho sai do parque! Sabia que o velho estava em paz! E invejou-o!

5 Comments:

Blogger Miss I tornou público que...

Dickens para quê...

7:56 da tarde  
Blogger W. tornou público que...

Brutal! E gosto sobretudo da forma como estão encadeados, da lógica da dor...

9:20 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

:)
A pleasant evening and sweet dreams, from your friend

Sérgio de Andrade

12:44 da manhã  
Blogger Inês Ramos tornou público que...

Já estou com saudades de estar contigo de novo!
Como eu te adoro, Sir G!!!

10:09 da manhã  
Blogger Sergy tornou público que...

Isso lembra-me a minha música favorita dos 80s:

"I don´t have to sell my soul
He´s already in me
I don´t need to sell my soul
He´s already in me
I wanna be adored
You adore me
You adore me
You adore me
(I wanna I wanna be adored)"

9:35 da tarde  

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