terça-feira, dezembro 28, 2004

O mar e os teus olhos...

A suave brisa marinha acaricia-me a pele endurecida e queimada pelo sol e pelos anos...é uma carícia agreste, como a de um homem amargo e duro a um filho num raro momento de ternura.
O tempo era ainda ameno naquele fim de tarde de um Estio moribundo, mas a brisa endurecia posições em cada dia que passava, deixando no ar indícios vagos, porém em crescendo, de uma urgência pelo Outono, breve renascido.
O mar aspergia-me com seu intenso perfume. Maresia e sal...
Em tempos idos, jovem de corpo e espírito, eu adorava esse aroma de vida marítima...o chicotear das ondas, o som das gaivotas, da gente na praia...a maresia..
Ainda aprecio tal cenário, mas como tudo na vida ("e como a própria vida"), o excesso provoca náuseas.
Esperei um quarto de hora..à medida que a bola flamejante ia-se desvanecendo ao longe, assim a praia ia-se desertificando...fechei as pálpebras...ponderei...



Ponderei, vendo-te dormir...ponderei, reflecti, e após acessa discussão no meu íntimo, cheguei á conclusão que amo os teus olhos...oh, não leves a mal, amo-te como és e pelo que és, mas os teus olhos (agora fechados) são excepcionalmente belos...negros, negros...poços onde me afundo a cada instante...pérolas negras, contas brilhantes, vivas e inteligentes...

Já a noite ia alta quando abri os olhos...é bom voltar a casa, voltar atrás, se bem que só por um instante, na nossa cabeça... dizem que o tempo sara todas as feridas, cobre todas as cicatrizes..e talvez...pois o teu nome caiu em absoluto olvido, as situações que vivemos desaparecem, e a cada dia que passa, as formas e contornos do teu rosto vão-se desvanecendo, numa longa erosão...porém, os teus olhos...estrelas negras de uma galáxia infinitamente longe..esses recordarei sempre.

Os meus olhos abrem-se, a minha boca abre-se numa grotesca máscara de espanto de um carnaval veneziano, enquanto ouço ao longe o meu coração quebrar, quando tu me disses nervosamente, e escorrendo lágrimas que...

Que o quê? Não me lembro! Tento me lembrar mas não me lembro...disseste que já não me amavas? Que nunca me amaste? Que tens outra pessoa e...

...e nada mais interessa...não corro, mas caminho apressado para a praia, passo as mãos pelos olhos e estas estão cobertas de...

..de lágrimas? Sangue? O que aconteceu?

A areia de Inverno dificulta-me o caminhar...ao longe, para além de dunas onde muitas vezes já estive em comunhão carnal contigo, nas noites e alvoradas da nossa juventude, há uns rochedos...lá em baixo, a morte acena-me com as ondas, num apelo convidativo..

...É tudo o que me lembro...e sei que agora estou para sempre condenado a viver na puta desta praia, todas as noites, cruelmente tentando-me lembrar do que eras, de quem eras, porque significavas tanto para mim, do que me fizeste, do que te fiz...caminho para as rochas...como todas as noites, sou obrigado a recriar a minha queda para a tumba marítima (que aconteceu ao meu corpo...apareceu, inchado e meio comido pelos peixes e crustáceos?...ou estará sempre preso no reino de Neptuno?)(Há quanto tempo se passou isso? Foi há 50 anos? Ontem?). E sou obrigado a relembrar o amor, a dor...e os teus lindos olhos. Pois tal é o Inferno dos suicidas (e assassinos????)






3 Comments:

Blogger Sir Paul Cezar tornou público que...

opa assim à primeira vista !!! e visto q ando numa de analisar o aspecto gráfico da coisa!!! porque o resto deixo pra voçês ;) acho que acima de tudo está um post bastante patriótico!!! logo por aí ja tens nota 20!! a partir daí é sempre a subir pelo blog abaixo!

5:36 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

pois...tens razão:)
não tinha reparado...o verde significa o flashback, o passado, o vermelho o presente...usei as cores por acaso,para distinguir!:)

Mas que se foda!

Viva Portugal

5:41 da tarde  
Blogger Inês Ramos tornou público que...

Estou sem palavras.

4:15 da tarde  

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