sábado, dezembro 25, 2004

Libertação

A água ia enchendo a banheira no pequeno quarto de banho da sua casa. Passou o dedo indicador esquerdo pela água que jorrava da torneira de zinco. Muito quente. Demasiado. Mesmo no Inverno. Ele gostava de água morna. Seria incapaz de tomar um duche gelado no dia mais quente do ano, por exemplo. Água morna, 365 dias do ano. Afrouxou a torneira de água quente. A água assim já o satisfazia. Pegou num frasco de espuma de banho. Frasco de 1,5 litros. Marca branca do supermercado. Côr roxa. Aroma de lavanda. Meio vazio. Ele despejou o resto do frasco quase na totalidade. A banheira encheu de espuma até transbordar! Fechou as torneiras.
Num minuto despiu-se. Observou-se nu no espelhdo do lavatório. Tão jovem...tão forte.

Entrou na banheira. Estendeu os braços para trás da cabeça! Relax absoluto! Sentiu-se tão bem. As preocupações dos últimos tempos pareceram inofensivas, tal como se fosse um mero pesadelo que lhe tivesse perturbado a noite anterior! E por acaso até tinha tido um pesadelo nessa noite...um muito estúpido. Estava num hotel para milionários, com quartos a custarem 10.000€/noite, e não conseguia dormir, porque o seu quarto estava assombrado pelo fantasma de uma rapariga de 16 anos. Pois bem, esse sonho não o afligia, não mais que todos os acontecimentos dos dia anteriores o afligiam.
Teve vontade de fumar um cigarro...não! Um charro! Um charro na banheira!
Saiu da banheira! Passou para o quarto, nu, cheio de frio e a pingar. Abriu a cómoda, tirou a mortalha e a ganza. Enrolou o charro. Acendeu o charro...voltou para a banheira.
Deu uma, duas, três, quatro, cinco, seis passas! Sentiu-se ainda melhor. Mas pousou o charro de lado...não queria ficar pedrado de tal maneira que não conseguisse fazer o que tinha em mente.

Na borda da banheira, uma lâmina de barbear quadrada.
Pegou nela com a mão esquerda. Rasgou o pulso. Direito...sangue! Meteu a mao direita na água..a água perfurmada tornou-se turva e escura. Com a mão direita a esvair-se, pegou na lâmina...um último esforço. Rasgou o pulso. Esquerdo...sangue!
As feridas abertas doiam, mas não tanto como as interiores.
Estendeu a cabeça para trás...a banheira ia-se enchendo com a sua vida.
Fechou os olhos e esperou o sono libertador. O sono onde não haveria pesadelos, nem com fantasmas de meninas de 16 anos, nem com fantasmas reais de todos os quadrantes, que assolavam os seus dias!

5 Comments:

Blogger Sergy tornou público que...

Já sei o que vão dizer...foda-se sérgio!!
Que raio de comentário para a noite de Natal!
E eu digo:
Ide-vos foder, quando as musas atacam,tenho que escrever! E são bem negras, as minhas musas!

1:58 da manhã  
Anonymous Anónimo tornou público que...

isto remete-me para uma musica de jorge palma....Passos em Volta....tenta sacar e ouve vais perceber a semelhança!!!

ass:rouxinol

3:11 da manhã  
Blogger Inês Ramos tornou público que...

Tu és lindo. A noite de natal é uma puta de uma noite como outra qualquer. Mim, laiques laiques...

10:36 da manhã  
Blogger Goth Mortens tornou público que...

Lindo. Adorei.

12:50 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Paulo, gosto de Jorge Palma, mas não conhço essa música.
Vou sacá-la, e depois digo-te qq coisa!

5:56 da tarde  

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