segunda-feira, dezembro 27, 2004

Insónia

Deitado de barriga para cima, cruzei os braços atrás da cabeça. Contemplei o teto dos meus aposentos. Respirei fundo. Fiquei assim um minuto...estendi a mão e toquei a fria parede de pedra atrás da minha cabeça...acariciei a parede suavemente..voltei à posição inicial.
Não sabia que horas eram ("porventura meia-noite"), mas sabia que uma ou duas horas passariam antes de adormecer. Mas sentia-me BEM. A insónia não é obrigatoriamente uma praga, dá-nos tempo para nós, fomenta a reflexão e a circunspecção...que importa que o meu leito fosse desconfortável, os meus aposentos pequenos e algo frios? Tenho 20 anos, a vida toda à minha frente, tenho o coração puro, e a consciência tranquila. Não me importa o que digam...

Eu nunca me importei com o que diziam...nunca tive tempo...os meus pais pereceram quando eu era pouco mais que um criança. Tive que crescer rapidamente. Sou um homem ainda jovem, mas sem infância...um homem sem infância não é obrigatoriamente infeliz. É um homem orgulhoso, um homem que se teve de fazer a si próprio...um homem com um sentido de responsabilidade muito grande...

E todos disseram que o meu sentido de responsabilidade ficou abalado quando me enamorei dela. Todos me avisavam...dos murmúrios, rumores, da reputação dela...não liguei...eu nunca liguei ao que os outros diziam...por certo ela era diferente...era uma Mulher fora do tempo dela, uma mulher forte, decidida, que sabia o que queria...nunca conheci ninguém como ela...ela incutiu em mim algo muito forte...mostrou-me o mundo como eu nunca vi...mostrou-me como o mundo é uno, como devemos viver a vida em paz absoluta, em total respeito por nós, pelos outros e pela natureza...ela vivia a vida como mais ninguém...por isso a odiavam, por isso a votavam ao desprezo, mesmo que não houvesse nada de errado, ou sombrio nos seus actos e pensamentos...quanto a mim...só ao seu lado conheci a verdadeira felicidade...

Ao seu lado permaneço...mas separado pela parede fria...volto a acariciar a pedra...imagino a suave mão dela do outro lado da barreira...respiro fundo..custa-me muito respirar...passo a mão no peito...as horrendas cicatrizes cruciformes estão lá...macabra memória das torturas a que fui sujeito nestes últimos dias...
Dentro de poucas horas, quando as primeiras luzes da alvorada reflectirem o orvalho matutino suspenso em teias de aranha madrugadoras, a Inquisição vai-me queimar na fogueira....
Caio desamparado nos braços de Morfeus e no sonho sou feliz com ela...

5 Comments:

Blogger Sergy tornou público que...

Nota do autor:
Sim, eu sei que devia escrever esse conto em português medieval...mas já é uma sorte eu saber (mais ou menos) português moderno.
De qq maneira:
1) eu não sou escritor, foda-se!
2) isto não é um livro
3) não pagas para ler isto
Logo, porque é que te estás a chatear???

2:44 da manhã  
Blogger Inês Ramos tornou público que...

Gostei imenso. Ela foi emparedada viva e ele vai para a fogueira... Quem não sonha como um fabulosos destino destes???

5:02 da manhã  
Blogger Sergy tornou público que...

Aproveitem bem...é o final mais feliz que lerão num conto meu!

11:13 da manhã  
Blogger Kampy of Sengir tornou público que...

Sera isto uma mistura entre E.Bathory e Torquemada????

11:22 da tarde  
Blogger Sergy tornou público que...

Não...é só uma parábolazita sobre como se pode encontrar a felicidade na diferença, mesmo perante a indignação de uma sociedadezinha hipócrita.
Por acaso situei-a na Idade Média, mas é uma questão intemporal e atemporal!

12:18 da manhã  

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